quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Marcelino Pão e Vinho

Marcelino Pão e Vinho

As lágrimas derramadas em louvor do comovente filme Marcelino Pão e Vinho, passaram a cloreto de sódio, andará por cinquenta pares de equinócios.
Pablito Calvo o pequeno actor de oito anos de idade, que personificou o lendário Marcelino no filme Marcelino, pan y vino de 1955, do realizador húngaro exilado em Espanha Ladislao Vajda, baseado no romance com o mesmo nome e escrito por José María Sánchez Silva, deixou marcas indeléveis no disco duro da infância de todos aqueles pertencentes a essa geração. A história, que o citado livro recauchutou e adoptou à época, diga-se em abono da verdade, é uma lenda que remonta ao período medieval e que foi englobada num volume de contos por Afonso O Sábio (Alfonso X, 23 Novembro 1221 – 4 Abril 1284) Rei de Castela e Leão.
O enredo do citado filme tinha todos os ingredientes para um sucesso de bilheteira e para que um pranto de emoção passasse a fasquia exigida ao mais puro "cristalzinho japonês" na expressão lacrimal.
A história de Marcelino Pão e Vinho poderia ter tido várias versões perfeitamente verosímeis, isto é, a ficção a tocar a realidade.
Podemos especular que, na versão A, Marcelino teria sido abandonado, por quem o pariu, à porta do Mosteiro, com a clara intenção e a lucidez de quem quer evitar a todo o custo entregá-lo à roda onde, seguramente, teria tido um porvir bem menos brilhante e incerto apesar da sua premonitória prodigiosidade. Na versão B, poderia ter sido encaminhado para uma qualquer casa pia onde deveria suar as estopinhas e, também, não ir longe... Na versão C, estar destinado a colheita de órgãos, ou dador (...) de órgãos (...). Na versão D, ir desta para melhor..., por falta de cuidados sanitários, e aí, sem apelo nem agravo, Pablito Calvo teria perdido a oportunidade de ficar para a história. Na versão E, poderia ter dado um marginal psicopata e guião do filme Kalifornia, aqui personificado por Brad Pitt.
Na versão F, a do filme, Marcelino Pão e Vinho retrata a vida de uma criança órfã de pai e mãe, que após a morte dos progenitores é abandonada à porta do mosteiro onde viria, depois de várias tentativas recheadas de piedosas artimanhas e de peripécias de adopção, a ser criado por frades (doze, ao todo…), e onde desofusca sobre a vida espiritual, sobre a luz que vem do céu, sobre a vida de Jesus Cristo, sobre a vida do céu na terra, sobre Deus. Mais uma vez se fez jus ao refrão “ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo” … Mais ainda, este pequeno órfão viria a revelar-se um fazedor de milagres: Marcelino tornar-se-á o protagonista de um milagre que iria transformar a pacata vida daquele pueblo espanhol onde ocorreu a história, num verdadeiro reboliço.
O destino é irónico. Na vida real, este actor prodígio, Pablito Calvo, bem cedo mandou as câmaras de filmar às urtigas. Arrecadou fama e mimo, licenciou-se em Engenharia Industrial e passou a dedicar-se a negócios como empresário, envolvido em actividades imobiliárias e hoteleiras na cidade de Torrevieja, na costa alicantina de Espanha, no mais recôndito silêncio do anonimato e privacidade. Afirmava não sentir saudades dos tempos de actor, talvez porque o único filme em que teve verdadeiro êxito ter sido o que aqui relembramos. Pablito Calvo faleceu aos 50 anos por rotura de aneurisma cerebrovascular, em 2 de Janeiro de 2000.
Adiante. O filme a que me reporto contou-nos a pungente história de um neno que está só neste mundo tendo como únicos sócios os frades do mosteiro; pelo menos alegres, mas nem para as solas de D. Camilo (…). Marcelino era uma criança normal: salta-pocinhas, soltava puns com ternura, era traquinas, desobediente, brincalhão, imaginativo (inventou um amigo Manuel com quem brincava), fazia partidas e cagava-se a rir com as suas consequências; divertia-se a topar caga-lumes. Como tal, conseguiu dar a volta à vida rotineira e deslavada no mosteiro, que por tal, mais o incentivava à descoberta e estudo do desconhecido. Mais, conseguiu dar cores alegres ao ambiente cinzento do mosteiro, e aos frades; além de flatos e incontinência urinária, provocava-lhes um sentimento de alegria e alheamento que, isso sim, só D. Camilo poderia produzir…
Marcelino tinha na massa do sangue os genes da curiosidade e, como toda a criança normal adorava espreitar e coscuvilhar o desconhecido: à aventura! Resumidamente, naquele mosteiro havia uma espécie de sótão para onde eram levadas, amontoadas e guardadas coisas antigas dos frades e do próprio mosteiro. Um belo dia Marcelino nas suas andanças investigacionais, em total desobediência ao perfeito do mosteiro, um crápula, subiu ao sótão e por lá andou à coca com olhar de pássaro, até se deparar com uma enorme e por ali abandonada e esquecida imagem de Jesus Cristo pregado na cruz; o garoto ficou admirado com aquela figura ali, ao pó, solitária e esquecida de um santo homem, filho de Deus, como lhe haviam predicado os frades. Esse encontro tão extraordinário quanto revelador; a magia da imagem de Jesus pregado no madeiro, criaram, metaforicamente falando, um alçapão que a todo o instante, irreprimivelmente, lhe acicatava a vontade de se deixar cair. Daí em diante passa sempre a visitar aquele sótão para ver aquela encantadora e magnética imagem... Certa vez Marcelino, por forte impulso empático, levou consigo uns restos de comida (côdea de pão e vinho) da parca alimentação que lhe ofereciam no mosteiro, até ao sótão; com um olhar meigo e puro aproximou-se da imagem e estendeu-lhe e braço, num gesto impregnado de imaculabilidade e inocência próprias de uma criança, oferecendo a côdea do pão à imagem de Jesus... Logo a seguir a este gesto de dádiva, aquela estátua antes estática e inerte, estende o braço até ao pão, e toma-o da mão de Marcelino.
Jesus aceitaria, assim, a oferta e a conversa com o garoto, iniciando-se uma forte amizade e empatia entre ambos. Como recompensa ao carinho dispensado pela criança, Jesus iria levar Marcelino ao encontro da mãe, no céu. Mas, com roubo continuado de comida, Marcelino acabaria por expor os seus actos furtivos aos monges, que passaram a vigiá-lo e a segui-lo. Quando os monges entraram no sótão, depararam com Cristo que amparava nos braços o menino que parecia dormir para todo o sempre. Perplexos com o inusitado da cena e com a intensa luz que dela imanava, a tocar o sublime, crêem, os monges, que terão ocorrido milagres.
O resto está no filme.

Já de si, Marcelino é onomasticamente giro! Depois o enredo: um recém nascido abandonado à porta dum mosteiro onde viria a ser acolhido e criado por 12 monges. Ainda a atmosfera de religiosidade omnipresente, e a ingenuidade e comportamentos pueris expressos nas atitudes e brincadeiras dos intervenientes.
O filme acabado de citar foi exibido, naquele tempo de 1955, no já desaparecido Cine-Parque de Chaves – sala de espectáculos da cidade, mesmo ao lado do elegante Café Comercial, também no baú das memórias ainda que remoçado com o mesmo nome, mas com perda referencial, onde nos intervalos das projecções, coincidindo com a troca de bobine na máquina de projecção, se aproveitava para tomar uma bebida quente no inverno e fria no verão; ou um copo de vinho que estava sempre à temperatura recomendável -. Este Cine-Parque, viveu algum tempo sob o tecto patrimonial de familiares de Vila Verde da Raia, e emanava um cheiro ambiental que lembrava a essência do volfrâmio em estado puro; foi demolido e substituído pelo Cine Teatro, este com um aroma indisfarçável de terracota.
O "trinta e cinco milímetros", que recordamos, de longa-metragem, suponho, puxou o sentimento às gentes do concelho. E, suspeito, terá atravessado bons corações à escala planetária, mormente aos latinos e afro-latino-americanos.
A bilheteira esgotou a venda de bilhetes e as portas do cinema abriram-se a um formigueiro humano que veio ao encontro daquele garoto carismático que, no ranking social, nem sequer almejava o estatuto de zorro, mas que bulia com o saco lacrimal mais imperturbável. O espaço do “cinema” depressa se revelou exíguo para a multidão. E dificilmente se equilibraria a balança da oferta e da procura, tal a precariedade da oferta face à abundância da demanda. A projecção cinematográfica mobilizou as “cadeiras suplementares” aos Bombeiros "De Baixo" que preenchiam todos os corredores e todos os espaços livres da sala. Enchente só comparável às projecções dos “Dez Mandamentos” e “Ben-ur”; ou algumas “cáboiadas” e os “de capa e espada” que faziam, a miúdo, uma lustrosa casa!
Ainda há tempo e espaço para lembrar a enchente que aqui teve lugar a quando da vinda do “General sem medo” – Humberto Delgado -, Maio de 1958, na campanha e disputa eleitoral com o candidato do regime Américo Tomás, donde se extrai do discurso: «Todos nós, cidadãos pacíficos duma candidatura pacífica, queremos pacificamente conquistar a paz. Mas os esbirros do governo, como têm visto, andam a chamar-nos subversivos nos jornais e a tratar-nos na via pública como malfeitores. Ninguém sabe, portanto, minhas senhoras e meus senhores, onde isto pode ir ter. Há uma coisa, porém, que quero jurar aqui. Eu estou pronto a morrer pela liberdade!», e eu também, diga-se. Disse ainda o General, nesta cidade e na mesma altura, sobre Salazar: “obviamente demito-o”. Humberto Delgado, como todos sabem, morreu assassinado, juntamente com a sua secretária e companheira Arajarir Campos, às mãos da PIDE em Fevereiro de 1965.Voltando ao relato: a geral do cinema ficou literalmente ocupada, melhor dizendo apinhada por gente ultra-sensível ao drama e, coincidentemente, a de mais fracas posses. Haviam entrado “furando portas” indiferentes à autoridade consubstanciada nos porteiros, que, aliás, ponderaram em afrouxar, e a meu ver bem, a carga autoritária para que estavam mandatados, face à avalancha de peregrinos que, em catadupa, se acotovelavam, rédea e tigre à solta (…), afim de não perderem um milímetro da histórica exibição. Nem mesmo Popey, o porteiro de estatura atarracada, a quem só faltava o cachimbo de sabugo de milho, para sósia perfeito daquela personagem clássica dos desenhos animados, que se tinha preparado e regalado com suculenta pratada de grelos, se atreveu a manifestações de arrogância ou poses truculentas; só lisura para com um público mais forte que Brutus na investida.
Apagadas as luzes, em sequencia fading, a ansiedade foi progressivamente dando lugar à emoção e a rostos emocionados.
Pese, embora, a seriedade do drama, pontualmente e não sei porque, foi sendo a sessão entrecortada por um risinho soluçante, nervoso, contido e surdo; disperso. Contudo, havia um local na plateia, a que poderíamos chamar epicentro do rumor, onde o ambiente contrastava entre a discórdia e a galhofa, em animado coro, antevendo-se duas ou três causas para o ocorrido. Da análise feita posteriormente, à luz do dia por comentadores abalizados e peritos na matéria, concluiu-se que só poderia ser um traque, por que?! Primeiro porque se houvesse roubo de lugar, apalpadela ou lugar para filho da mãe, teria havido porrada de criar bicho, ou mesmo mortes; segundo porque a ocorrência de qualquer coisa grave não dava azo a riso, mas gritos de pânico, e tudo em pantanas. Preto no branco, é fácil e seguro chegar à conclusão que daquele epicentro só poderia ter havido expulsão de substância volátil com expressão sonora, mesmo que disfarçada por tosse ou qualquer outro tique mistificador. Foi assim que, impetuosamente, “há um” que não se aguenta nas estribeiras e desata às gargalhadas que alastram como pólvora, com ondas de choque a alastrar em todas as direcções; convulsivamente até ao engasgo, semeando o caos. Como nos intervalos não arredavam pé temendo a sentença: quem vai ao vento (...) e nem sequer se deslocavam aos lavabos, nas emergências fisiológicas, é fácil adivinhar as repercussões inerentes a tais atitudes repressivas. Os lendários e polivalentes funcionários dessa Casa, alguns ainda vivos, contam os inúmeros protestos de classe (notáveis da urbe) com que foram confrontados. Mas o protesto mais veemente, salpicado de impropérios vernáculos com semântica a preceito do contexto, vieram, sobretudo, dos ocupantes da primeira fila da plateia, para onde corria livremente e proveniente da geral, um fluido filiforme em movimento serpentiforme, para cá e para lá, inicialmente em pára e arranca, ziguezagueando, à descoberta do leito futuro, numa imitação criativa de “rua direita”, seguindo aqui a pendente natural do soalho à procura do fosso da orquestra.
Fim

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